quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Profissão - A escolha



          A todo o momento, todos os dias de nossa vida, em face de circunstâncias, imposições, questionamentos, somos induzidos a escolher caminhos por cujas consequências e responsabilidades responderemos. Escolhas, nós as fazemos quotidianamente, desde as mais simplistas, como o nome de um filho, a opção por um candidato, até as mais sutis, de caráter intimista, existencial e metafísico. Descobrir a profissão é um dos grandes desafios do cidadão que busca o aprimoramento e a realização pessoal. Para isto, tanto a vida como o destino podem pregar-lhe uma série de armadilhas.
          Não precisa ser expert para indicar uma trajetória óbvia para o sucesso: estudar! O estudo ainda é o mágico itinerário que abre portas e limites para o triunfo. Sem dúvida, os bancos escolares nivelam as realidades mais heterogêneas e díspares. O conhecimento acadêmico enseja oportunidades e mercados, a despeito da excessiva disputa e concorrência.
          Não procede, porém, o argumento de que o estudo não seja essencial, citando o exemplo um ex-presidente da República. Isto é um engodo. Não vamos aqui valorizar, superestimar a exceção, que esta é obra do acaso. Deixemo-la de lado por ser um desestímulo aos que creditam o sucesso à força de vontade, abnegação e muito trabalho.
          Hoje, com as divisões, subdivisões e rumos da tecnologia, com profissões muito parecidas umas com as outras, com detalhes e peculiaridades, há um labirinto diante dos que buscam uma alternativa profissional. Às vezes, o cidadão, depois de voltas e reviravoltas, depara-se com um dilema nada fácil de digerir e gerenciar. Constata que, após anos de estudos, investindo as parcas economias de seus pais, varando madrugadas, preparando-se para pesquisar o melhor trabalho, para realizar a melhor prova, eis que chega à desoladora conclusão de que, na verdade, não era a carreira almejada. Há um choque e um conflito interior!
          Mas, perseverante, continua. Pacientemente recomeça seu calvário o que não garante que vá realizar seus verdadeiros propósitos e sonhos. E lá se foram horas, dias, estações de de angústia, exaurindo suas forças em prol da grande conquista que malograda, nunca chega. Há mesmo pessoas que gastam a vida perseguindo afinidades. E morrem sem jamais conseguir o intento. Muito triste!
          Há fatores que desestimulam o entusiasmo pela opção profissional, mormente num mundo capitalista e de disputas acirradas. Às profissões nem sempre lhes é dado o devido valor. Um flanelinha, v.g. (sem qualquer referência pejorativa), pode auferir uma renda superior à de um universitário, apenas por um simples: “vou dar uma olhadinha no seu carro, doutor!...”.
          Diante do quadro, ou você concorda, ou segue seu trajeto com a pulga atrás da orelha, pois não sabe o que pode acontecer com seu carro. Um simples risco na lataria lhe causará sérios danos em seu patrimônio. Refém de um fato inevitável você faz a primeira opção e segue seu roteiro tranquilamente. Em retornando, tira do bolso dois ou cinco reais e, pronto. O crime compensou!
          Nada mal para quem não investiu um centavo em sua formação, vive na informalidade, sequer paga impostos, ou seja, consegue uma economia razoável capaz de gerir sua vida, criar seus filhos e sobreviver... Na relação custo/benefício há um total desestímulo para quem passou o tempo mergulhado em pesquisas e folheando livros.
          Então, pergunto, qual o prêmio, para quem frequenta uma faculdade, faz estágios, mestrado, doutorado, se atualiza, se recicla, não para de estudar, e ostenta uma galeria de belos diplomas e molduras? De que vale tal sacrifício que sequer assegura um salário confortável para sobrevivier com dignidade? É apenas uma reflexão...
          Somos um país de privilégios, imediatismos e contradições. Impotentes, diante de algo que foge ao nosso controle, cedemos, acomodamo-nos e tocamos a vida. Com o tempo, aceitamos que “isto é cultural”, eufemismo para encobrir situações esdrúxulas, contrastes gritantes de uma cultura que privilegia o jeitinho ao invés de valorizar competência e méritos adquiridos.

Luno Volpato, escritor, poeta, membro da Academia Campinense de Letras e mestre em Língua Portuguesa. Publicado no Correio Popular, edição de 14/10/2012.

domingo, 12 de agosto de 2012

A formação de nossos jovens

 

Uma volta atrás

Por que o Brasil não salta a barreira do blá-blá-blá e engrena uma política vencedora de esporte na escola

12 de agosto de 2012
CHRISTIAN CARVALHO CRUZ - O Estado de S.Paulo

Joaquim Carvalho Cruz (sim, só uma coincidência) tinha 21 anos quando, vestindo azul, carregou sua magreza e seu semblante de esforço ao até hoje único ouro olímpico do Brasil em provas de pista no atletismo. Correu a final dos 800 metros rasos dos Jogos de Los Angeles, em 1984, em 1 minuto e 43 segundos, recorde olímpico na ocasião. Lá se vão quase 30 anos. E tanta coisa mudou de lá para cá. A União Soviética, que boicotou aquela Olimpíada, desapareceu. A China ficou só em quarto. O próprio Joaquim, que continua magro, modesto e tímido, já não tem aquela cabeleira toda, ganhou uns fios grisalhos e agora fala com leve sotaque americano - reflexo dos 30 anos nos Estados Unidos, onde estudou, casou, cria seus dois filhos adolescentes, trabalha num centro médico da Marinha americana procurando talentos esportivos entre militares feridos de guerra, treina atletas olímpicos e paraolímpicos do país e, finalmente, onde pensa em maneiras de mudar o Brasil por meio do esporte.


Pupilas. Joaquim Cruz com a americana Alice Schmidt e a saudita Sara Attar, em Londres.

"É incrível que nesses 30 anos quase nada tenha mudado estruturalmente nessa área. Será que nossos dirigentes e políticos ainda não enxergaram que a solução para nossos problemas está no esporte na escola?", ele pergunta retoricamente, porque sabe bem a resposta. "É na escola que formaremos uma base grande da qual será possível tirar muitos campeões." De outro modo, ele lamenta, continuaremos a suspirar por esporádicos heróis como o ginasta Arthur Zanetti, ouro nas argolas em Londres, e os irmãos Falcão do boxe, que treinavam humildemente socando humildes bananeiras num humilde quintal. "A falta de oportunidades para o garoto brasileiro que queira ser esportista me assusta."

Mas Joaquim não fala apenas. Ele também age. Em Brasília, onde mantém um instituto que leva seu nome, acaba de iniciar um processo seletivo para descobrir e formar fundistas capazes de medalhar na Olimpíada de 2020. O Programa Rumo ao Pódio, patrocinado pela multinacional do ramo de embalagens Tetra Pak com R$ 1,4 milhão, recebeu 1.400 inscritos. Depois de uma fina peneira inspirada no modelo de seleção dos Seals americanos, sobrarão 30 jovens de 16 a 20 anos.

Na quinta-feira, Joaquim estava no Estádio Olímpico de Londres quando falou ao Aliás por telefone. Entre uma resposta e outra, dirigia palavras de conforto à corredora americana Alice Schmidt, sua pupila, desclassificada na semifinal dos 800 metros. Ele contou como foi, desta vez nos bastidores, fazer história de novo nos Jogos. Joaquim também era o técnico da atleta saudita Sarah Attar, de 19 anos, que de calça, mangas compridas e lenço na cabeça, foi ovacionada pela plateia mesmo terminado sua prova em último lugar. Pela primeira vez o comitê olímpico saudita permitiu a participação de mulheres nos Jogos. E se até isso mudou...

O que te vem à cabeça quando dirigentes esportivos e políticos dizem que nós seremos top 10 nos Jogos do Rio em 2016?

Bom, essa é a especialidade deles, não é? Falar. Falar qualquer coisa. Mas tudo bem. Falar de objetivos altos não é ruim. Só que já se passaram dois anos desde que o Brasil foi escolhido para sediar a Olimpíada e nada foi feito para mudar o que interessa, o que realmente será capaz de construir uma realidade nova no País, que é o esporte na escola. Será que não enxergam que esse é nosso maior problema? Eu li que dias atrás, aqui em Londres, autoridades brasileiras iniciaram oficialmente a contagem regressiva para os Jogos do Rio. Com relógio e tudo. Só agora?! Essa contagem tinha que ter começado dois anos atrás. Se seis anos já seriam insuficientes para formar um atleta ou mudar a estrutura esportiva do Brasil, quatro anos então... Temos que mexer nesse cenário ONTEM. Os políticos e dirigentes fazem muita política e pouca ação. A hora de falar já passou. Agora é hora de agir.

O dinheiro aumentou. Fala-se em R$ 2 bilhões investidos nos últimos quatro anos. Seria o dobro do ciclo olímpico anterior.

Sim, é verdade. Cresceu o apoio às confederações e ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que são os responsáveis pela tarefa de possibilitar que os atletas ganhem medalhas. Mas tem um detalhe. Nós não temos esses atletas em quantidade. Temos uns poucos. Sabe por quê? Porque a base de onde se extraem possíveis medalhistas olímpicos é minúscula. Tirando o futebol, o Brasil não é uma mina que jorra atletas de alto desempenho. A falta dessa base é nossa maior deficiência. E a base precisa ser feita na escola. É o caminho mais fácil e promissor, para o esporte e para o País. Nos últimos seis anos, saiu ministro de Esporte, entrou ministro de Esporte. Saiu presidente da República, entrou presidente da República. E mudou o quê? Mas algo ainda pode ser feito.

O quê? De que maneira?

Para o Rio 2016 podemos copiar o exemplo britânico. Eles chamaram um holandês que mandou todo mundo embora e convidou um monte de gente comprovadamente boa, experts, muitos ex-esportistas do mundo todo, para trabalhar basicamente com os atletas já existentes e com potencial. Por meio das loterias, aumentaram os repasses de dinheiro e investiram pesado individualmente nesses atletas. O resultado está aí: a Grã-Bretanha deve terminar em terceiro lugar no quadro de medalhas, sua melhor participação na história da Olimpíada.

Mas esse método não mascara nossa grande deficiência, que é justamente a inexistência de um programa esportivo duradouro e que nos faça crescer como nação? As medalhas olímpicas devem ser o objetivo em si ou a consequência de um trabalho maior?

Você tem razão. A Olimpíada não vai acabar em 2016. E acho que o Brasil também não. Então, não precisamos pensar tão pragmaticamente só para daqui a quatro anos. O correto é aproveitar a grande oportunidade que temos para implantar esse programa mais duradouro junto com a educação, algo de que toda a população vai se beneficiar. Porque está mais do que provado que a prática de esportes melhora as notas dos alunos, afasta os jovens das drogas, da criminalidade, dá oportunidade e por aí vai. Por outro lado, ter a medalha olímpica como objetivo não é ruim. O atleta, o garoto, precisa acreditar que é possível. Parece pouco, mas te asseguro que significa um passo enorme.

Imagino que essa segurança vem da sua própria história...

Sim, da minha vida no esporte. Quando eu tinha 15 anos um americano me deu um par de tênis All Star - eu jogava basquete - e disse que quando eu terminasse a escola em Taguatinga ele me daria uma bolsa para estudar e jogar numa universidade americana. Eu ia duvidar? De jeito nenhum! Eu pensava: "Puxa, se esse cara que nem é meu parente, meu amigo ou meu vizinho vem de outro país e acredita desse jeito em mim, eu devo ser especial... Vou nessa!" Foi assim que me tornei medalhista olímpico, seis anos depois. Então, nós temos que plantar a semente da vitória. A vitória pode ser a medalha olímpica. Mas também é a jornada do garoto atrás dessa medalha. Veja uma coisa. Hoje (quinta-feira) a minha atleta, Alice Schmidt, que eu treinei por sete anos, não se classificou para a final dos 800 metros. Ela deixou a pista chorando, eu a deixei chorar um tempo e então fui conversar. Ela já está no final da carreira, portanto era praticamente a última chance dela em Olimpíada. Perguntei se, apesar do resultado ruim em Londres, ela tinha aprendido algo na trajetória esportiva dela. "Muita coisa, aprendi a viver", ela me respondeu. É isso! A medalha representa o sacrifício, o esforço, é um símbolo importante. Mas, se ela não vem, a jornada tem que ter servido para aprendizados e sentimentos maiores, coisas que você vai carregar pelo resto da vida.

Além da Alice havia outra corredora treinada por você nos 800 metros, a Sarah Attar. Ela chegou em último lugar na eliminatória, 45 segundos atrás da primeira colocada, mas fez história por ser a primeira mulher saudita a disputar uma prova de atletismo nos Jogos. Que tal a experiência?

A Sarah realizou o sonho de muitas mulheres e meninas. Ela permitiu que as novas gerações sonhem. Conheci a Sarah apenas seis semanas atrás, e tenho orgulho dela como se fosse minha filha. Ela é originalmente corredora de maratona. Nasceu nos Estados Unidos e tem dupla cidadania, porque a mãe é americana e o pai, saudita. Treina e estuda em uma universidade da Califórnia. O pai me ligou, explicou a situação. Ela tinha sido convidada pelo COI, não disputou seletiva. Eu topei e pensei: "Meu Deus, preciso montar um programa de trabalho para que essa menina termine a prova sem se machucar". Porque mudar da maratona para os 800 metros não é pouca coisa. Seria o mesmo que pedir pro Usain Bolt correr os 10 mil metros. No fim, foi uma experiência muito legal. A Sarah é supercompetitiva. Estava preocupada, não queria fazer feio. Ficava na internet investigando sobre a pior marca dos 800 metros na história dos Jogos. Aí falei para ela: "Para com isso, Sarah. Você já é uma vencedora olímpica antes de entrar na pista. Quanto mais tempo você levar, melhor para o mundo! Não esquenta com o tempo". Ela curtiu estar ali. Depois da prova veio me dizer que não tinha sentido o próprio corpo durante toda a corrida. Estava consumida pela energia da plateia.

Voltando às ambições brasileiras: como é que se forja uma potência olímpica?

Certamente não é em quatro anos. Tem que dar oportunidade para o garoto praticar esporte na escola, na comunidade dele, e dali você tira os fora de série capazes de competir em alto nível. Qual é nossa realidade hoje? Trinta por cento das escolas públicas brasileiras não têm espaço adequado à prática esportiva. Não estou falando de quadras poliesportivas. Não existe espaço nenhum, nada. São dados de uma pesquisa encomendada pela organização Atletas Pela Cidadania, da qual faço parte junto com Raí, Ana Moser, Magic Paula e uma porção de atletas preocupados com o futuro do País. Hoje acontece o seguinte: o garoto pobre brasileiro vê os grandes heróis olímpicos pela TV, se empolga e sente vontade de imitá-los. Quer correr, nadar, jogar tênis, saltar. Ok, ótimo! Mas onde ele vai praticar? Em clubes? Esquece, a família dele não tem dinheiro para pagar a mensalidade. Quando eu ganhei a medalha de ouro em Los Angeles, meu irmão e meu primo ficaram tão entusiasmados que decidiram correr também. Começaram a correr na rua mesmo, sozinhos, sem instrução, já que não tinha outro jeito. Durou dois dias o entusiasmo deles. E talvez nós tenhamos perdido duas medalhas olímpicas, vai saber... Isso faz quase 30 anos e continua do mesmo jeito. O poder público não pode sonegar essa oportunidade ao garoto. Tem o dever de proporcionar a chance de ele manter o entusiasmo, a chama. E é a escola pública que pode fazer isso, não o clube. Do clube saem os atletas cujas famílias podem bancar o início da jornada dele.

Um modelo perverso que faz o Brasil viver de heróis olímpicos esporádicos, não? Seu caso é uma exceção.

Mais ou menos. Eu tive sorte. Como meu pai era carpinteiro, trabalhava na indústria de construção civil, eu podia frequentar o Sesi (Serviço Social da Indústria) de Taguatinga. Meus amigos da escola ou do bairro não podiam, pois precisava de carteirinha para entrar. Então, aos 7 anos eu fui estudar num local que oferecia também boa estrutura para a prática de esporte. Ali encontrei meu primeiro professor de basquete, que depois descobriu meu talento para o atletismo. Era um lugar onde eu passava a maior parte do meu tempo. No Sesi fui apresentado a educação física, tratamento médico, alimentação correta, vi um dentista pela primeira vez na vida, tomava remédio para matar os bichos da barriga. O Joaquim Cruz campeão olímpico vem daí. Mas e os meus amigos e vizinhos que só tinham a rua?

Por onde você começaria a mudança?

Insisto: na escola. Nos meus tempos de ginásio, nós íamos para a escola de manhã e voltávamos lá à tarde para as aulas de educação física. Hoje a educação física está dentro da grade escolar, antes da aula de matemática e depois da de história. Ou seja, o garoto que é bom em algum esporte, joga um basquetinho ralado na rua dele, não vai poder desenvolver essa aptidão na escola, onde poderia dar a sorte de ter um professor capaz de identificar nele algum potencial. Ao contrário, ele vai ter só os 50 minutos de aula, insuficientes para desenvolver algo consistente ou mostrar seu talento. E assim, o garoto que gosta de jogar na rua continua na rua. Aí ele chega à adolescência, fase da vida em que a gente se junta, faz grupos, turminhas, e em vez de se juntar a um grupo de estudantes atletas como ele, com possibilidade de construir uma vida melhor, ele se junta a grupos destrutivos. Bem, eu acho que o Brasil conhece bem essa história...

Como funciona nos Estados Unidos?

Vou contar a minha experiência para você sentir a diferença. Eu tenho dois filhos, de 18 e 15 anos. Quando o mais velho tinha 4, minha mulher me pediu que eu o colocasse no esporte. "Ok, vou matriculá-lo no futebol." Saí da minha casa, andei mil metros até o centro comunitário do bairro e inscrevi meu garoto nas aulas de futebol. Ali mesmo, no ato da inscrição, me perguntaram se eu gostaria de ser professor voluntário da turma do meu filho. Eu disse que não, pois não tinha experiência. Eu nunca tinha tido um filho! Depois assumi uma turma de basquete. Mas na primeira reunião com as famílias outro pai se prontificou a ficar com as aulas. Ele recebeu as instruções necessárias e foi credenciado pela prefeitura para ser treinador. Como nessa fase é algo bem básico, mais a título de diversão, tudo bem que não seja um especialista. E tudo isso sem custo, muito perto de casa, bem organizado e com boas instalações. O centro comunitário tem ginásio, piscina, quadra de tênis, campo gramado. Sem luxo, mas com o necessário. Cada bairro tem o seu, a 3 ou 4 quilômetros um do outro. O esporte está injetado na cultura americana - e começa quase sempre nesses centros comunitários oferecidos pela prefeitura.

E depois?

Na sequência vem a escola. No primeiro grau o garoto é apresentado a diferentes modalidades, ainda sem competição. No ensino médio ele pode participar de esportes competitivos e escolher: ou faz as aulas de educação física, que são obrigatórias, ou entra para uma equipe que vai competir com outras escolas do bairro, da cidade, do Estado, do país. O poder público dá dinheiro para as escolas manterem essas equipes. Elas são muito tradicionais. E tudo faz parte de um grande sistema gerenciado por uma espécie de federação estadual, sem fins lucrativos, que organiza as competições. Essa federação então trabalha em conjunto com as universidades, que vão recrutar os melhores para serem seus esportistas estudantes. A base, portanto, é muito grande. Encontrar atletas com potencial para o alto rendimento não é procurar agulha no palheiro como no Brasil. Desse sistema americano saem todos os grandes esportistas do país.

Por que é tão difícil estruturar um sistema assim no Brasil?

Porque nossos políticos conversam demais, e só entre eles. Os Atletas pela Cidadania têm um plano pronto, com diversas propostas de ação, entre elas a de que o País invista para levar esporte a todas, TODAS as escolas públicas até 2022. Há quase um ano nós pedimos uma audiência com a presidente Dilma para apresentar esse plano. Estamos esperando.

E por que você insiste, Joaquim? Por que se importa? Por que luta contra uma estrutura que está aí há pelo menos 500 anos?

(Depois de longo silêncio, emocionado) Olha, o meu trabalho como gente, como ser humano, não acabou ainda. Eu nasci com um objetivo. E se isso não for levado para a frente, todo o sacrifício, os treinamentos, as dores, as cirurgias terão sido em vão. (Silêncio de novo.) Existe algo maior do que tudo isso, sabe? Eu acredito que toda criança nasce uma estrela e tem o direito de brilhar. E nós adultos temos a responsabilidade de oferecer oportunidades de ela brilhar. Acho que é isso.

Fonte: estadao.com.br - acesso em 12/08/2012






domingo, 17 de junho de 2012

Degraus de ilusão


Fala-se muito na ascensão das classes menos favorecidas, formando uma “nova classe média”, realizada por degraus que levam a outro patamar social e econômico (cultural, não ouço falar). Em teoria, seria um grande passo para reduzir a catastrófica desigualdade que aqui reina. Porém receio que, do modo como está se realizando, seja uma ilusão que pode acabar em sérios problemas para quem mereceria coisa melhor. Todos desejam uma vida digna para os despossuídos, boa escolaridade para os iletrados, serviços públicos ótimos para a população inteira, isto é, educação, saúde, transporte, energia elétrica, segurança, água, e tudo de que precisam cidadãos decentes.

            Porém, o que vejo são multidões consumindo, estimuladas a consumir como se isso constituísse um bem em si e promovesse real crescimento do país. Compramos com os juros mais altos do mundo, pagamos os impostos mais altos do mundo e temos os serviços (saúde, comunicação, energia, transportes e outros) entre os piores do mundo. Mas palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir, somos convodados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas. Além disso, a inadimplência cresce de maneria preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.

            Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneria impiedosa, até cruel. Em lugar de instruírem, esclarecerem, formarem uma opinião sensata e positiva, tomam novas medidas para que  esse consumo insensato continue crescendo – e, como somos alienados e pouco informados, tocamos a comprar.

            Sou de uma classe média em que a gente crescia com quatro ensinamentos básicos: ter seu diploma, ter sua casinha, ter sua poupança e trabalhar firme para manter e, quem sabe, expandir isso. Para garantir uma velhice independente de ajuda de filhos ou de estranhos; para deixar aos filhos algo com que pudessem começar a própria vida com dignidade.

            Tais ensinamentos parecem abolidos, ultrapassadas a prudência e a cautela, pouco estimulados o desejo de crescimento firme e a construção de uma vida mais segura. Pois tudo é uma construção: a vida pessoal, a profissão, os ganhos, as relações de amor e amizade, a família, a velhice (naturalmente tudo isso sujeito a fatalidades como doença e outras, que ninguém controla). Mas, mesmo em tempos de fatalidade, ter um pouco de economia, ter uma casinha, ter um diploma, ter objetivos certamente ajuda a enfrentar seja o que for. Podemos ser derrotados, mas não estaremos jogados na cova dos leões do destino, totalmente desarmados.

            Somos uma sociedade alçada na maré do consumo compulsivo, interessada em “aproveitar a vida”, seja o que isso for, e em adquirir mais e mais coisas, mesmo que inúteis, quando deveríamos estar cuidando, com muito afinco e seriedade, de melhores escolas e universidades, tecnologia mais avançada, transportes muito mais eficientes, saúde excelente, e verdaderiro crescimento do país. Mas corremos atrás de tanta conversa vã, não protegidos, mas embaixo de peneiras com grandes furos, que só um cego ou um grande tolo não vê.

            A mais forte raiz de tantos dos nossos males é a falta de informação e orientação, isto é, de educação. E o melhor remédio é investir fortemente, abundantemente, decididamente, em educação: impossível repetir isso em demasia. Mas não vejo isso como nossa prioridade. Fosse o contrário, estaríamos atentos aos nossos gasto e aquisições, mais interessados num crescimento real e sensato do que em itens desnecessários em tempo de crise. Isso não é subir de classe social: é saracotear diante de uma perigosa ladeira. Não tenho ilusão de que algo mude, mas deixo aqui meu quase solitário (e antiquado) protesto.

Lya Luft. Revista Veja, ed. 2272, 6 de junho de 2012, pg. 30. Escritora e tradutora literária, escreveu muitos livros de sucesso entre romances, poesias, ensaios e histórias para crianças.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Os valores humanos são insubstituíveis

Muito se fala que estamos vivendo na era da tecnologia. O marketing se utilizando de artifícios os mais diversos para tornar as novidades eletrônicas, que surgem em ritmo veloz, atraentes ao usuário.

Uma das ferramentas é envolver as novidades com um glamour característico daquela situação onde quem primeiro possui e utiliza o recurso (mais) moderno, está "por cima"!

Entretanto, existe risco quando esses aparelhos interferem nos valores humanos. Sabemos, por exemplo, que a televisão é fator de isolamento entre as pessoas. Cada família em sua casa, restringindo o antigo hábito de se reunir e conversar com os amigos ao final do dia. Pessoas muitas vezes distantes entre si, dentro da própria casa. O computador também contribui nesse sentido. Uma das consequências é estimular o comportamento individualista.

Não se trata de crítica à modernidade. Muitos de seus efeitos são bons e inquestionáveis. Trata-se, apenas, de cuidar para não se perca a vigilância sobre possíveis excessos, esses sim, prejudiciais aos insubstituíveis valores humanos.

Sobre o tema, veja a seguir o que narrou o médico Tadeu Fernando Fernandes, presidente da Sociedade de Pediatria de Campinas, em recente artigo publicado pelo Correio Popular, edição do dia 6 p.p.

VOZ DO ALÉM

A Pediatria é uma especialidade médica onde o relacionamento do médico com o paciente envolve uma tríplice, às vezes penta ou hexa aliança com pai, mãe, avós, babás e demais cuidadores da criança.

Muitas vezes o diagnóstico não sai do exame clínico ou laboratorial, um olhar, uma palavra, um gesto muitas vezes vale mais que um caminhão de exames.

O atendimento médico como mandam as regras da boa consulta impõe um atendimento humanizado, marcado pelo bom relacionamento pessoal, dedicação, atenção e tempo ao paciente.

Abuso dessa longa introdução, para apresentar ao leitor um caso onde toda essa teoria vira lixo.

Chamo à sala o Gustavo, paciente que acompanho desde o nascimento, hoje com três anos de idade. Aguardo sentado, lendo o histórico do garoto na ficha clínica e nada de entrar o paciente, vou até a porta e vejo no fim do corredor o pai vindo a lentos passos olhando para a tela de um moderno iPad.

E olha que não faltam cartazes educados e polidos lembrando que "ao entrar no consultório desligue o celular", "ele pode atrapalhar a consulta", etc, etc, etc. Besteira! Estou pensando em trocar os cartazes por quadros com pinturas de natureza morta...

Quando finalmente estamos posicionados para iniciar a entrevista com as tradicionais perguntas sobre alimentação, vacinação e demais problemas, escuto uma voz, uma voz feminina, em uma sala onde estavam eu, o pai e o garoto, de onde viria aquela voz?

Do além?

Não do maldito iPad!

O pai do garoto logo explicou:

- Doutor, eu trouxe o Gustavo para consulta, mas não sei responder essas perguntas, "eu sou somente o pai", a mãe é que sabe esses "detalhes", hoje ela tinha uma reunião importante na empresa e não pode vir, mas ela está aqui! Disse apontando para a tela da engenhoca e imediatamente virando-a em minha direção

Lá estava ela, a mãe, ao vivo, em cores, alta definição e com som!

O pai, expert em informática, explicou que estava usando um novo aplicativo "Skype para iPad", que oferece aos usuários o melhor dos dois mundos das chamadas com vídeo: a tela estendida e o display de um computador pessoal, mas com a mobilidade de um telefone celular.

Eu tive um súbito branco cerebral, fiquei olhando para dona Maria na tela do computador, o pai risonho olhando para o meu espanto e o Gustavinho trepado em cima da maca, brincando de pular, cena insólita!

Ela começou a contar que ele não comia nada, nada, nada, estava muito arteiro e à noite não dorme direito, "quer ficar na cama dos pais", a tia da escolinha, que ele frequenta em período integral, está reclamando da agressividade e blá, blá, blá... Como se estivesse ali na minha frente... Aliás, hoje existe uma nova geração de mães, as virtuais, que acompanham tudo do filho pelo Skype, e-mail, vídeos, fotos e pelas câmeras "Big Brother" que todas escolinhas tem como diferencial de marketing e segurança contra acusações inverídicas.

Enfim, eu tive um repente de retardo mental e comecei a interagir com a telinha de nove polegadas, peguntei do cocô, do xixi, etc, e a mãe naturalmente foi respondendo às questões, e o suporte de vídeo, digo, pai, segurando a telinha em minha frente.

Fui examinar a criança e ela (a tela) ficou lá em cima da mesa; palpa, ausculta, otoscopia, etc, e de vez em quando a voz do além perguntava:

- Tudo bem aí doutor? Fale alguma coisa... Por que estão todos quietos?

Finalmente concluímos que o Gustavo estava fisicamente muito bem, psicologicamente não tenho comentários a fazer.

Fiz a receita, pedi os exames que insistentemente a voz do além   solicitava e me despedi do pai com um aperto de mão, do Gustavo dando um palitinho colorido com sabor e da mãe... Xau, t+, vlw, fla kbça.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Senhor de seu próprio destino!

          No mundo tridimensional em que vivemos, o tempo é medida fundamental e serve de parâmetro para os atos e acontecimentos de nossa vida. Equivocadamente, o tempo não passa, nós é que passamos, e ao passar, deixamos as marcas e o estilo que imprimimos a nossa trajetória. Quer queiramos ou não, ninguém escapa às garras do tempo.

          O tempo simplesmente é. Não interfere, mas nos vigia de perto, acompanha nossos passos, espreita nossas iniciativas, aplaude nossas conquistas, reprova nossos equívocos e lamenta nossa inconsciência. Paciente, espera que descubramos os segredos e as entrelinhas da vida, nos vaivéns das ondas, nas auroras e crepúsculos, nos fracassos e conquistas, na grandeza e mesquinhez de nossos atos. É nosso aliado e escancara um leque de possibilidades para nossa autorrealização.

          Diz-se que o tempo, antigamente, passava mais lentamente. Ledo engano! Nós é que mudamos nossos hábitos, nossa agenda... A loucura dos tempos modernos não nos permite fazer tudo em 24 horas e culpamos o tempo. O tempo é parceiro dos que o valorizam.

          Se o tempo é implacável, aproveitemo-lo da melhor maneira. Se você resolver fazer uma faculdade, faça-a. Daqui a cinco anos o tempo terá passado e você, adquirido novas credenciais para sua vida. Quando não, será uma pessoa mais bem informada, consciente do que está acontecendo a sua volta e pertencente ao significativo círculo de pessoas com nível superior. Caso contrário, os cinco anos passarão inevitavelmente e você exclamará: "Ah! Eu poderia ter feito!" Isto no campo material.

          No plano existencial também há mil caminhos. A vida, via de regra, oferece chances em abundância. Busque um caminho, preencha seu espaço, invista em suas potencialidades e realização pessoal, teste seus limites, valorize seu esforço, priorize sua vontade. Dê chances à sua imaginação e capacidade de superação. Encontre-se consigo mesmo, sem dúvida, a grande descoberta da vida. Valorize seu impulso interior. A consciência não tergiversa, não se equivoca e não se deixa influenciar. É voz pura e sinal luminoso para anseios e promessas.

          Ainda outro dia fiz essas considerações para uma aluna no final do Ensino Médio. Ela teimava em desistir de estudar e ponderei que valeria a pena continuar e priorizar seu destino, mas caberia a ela a decisão. E o tempo correu. Acabo de receber o convite de sua formatura. É uma nova profissional na área da psicologia. Exemplos não faltam. O tempo espera, o acaso espera, mas a decisão é exclusivamente sua. E intransferível!

          Podemos recomeçar sempre, e isto é um quadro estimulante para aqueles que, numa quadra da vida, frustraram as próprias expectativas. Mas nem sempre o recomeço se reveste dos mesmos pressupostos, ou seja, o fato de você recomeçar aos 20 anos, ou aos 50, implica análises diversas, pois a rigor, os horizontes se ampliam para os primeiros e se reduzem para os últimos. No entanto, como o futuro é incerto poderá ser generoso para os de 50 e limitar-se para os de 20. Na dúvida, recomece! O tempo pode conspirar a seu favor e resgatar as chances perdidas.

          Sendo o tempo inexorável, alie-se a ele, tenha-o como parceiro e desta combinação advirão grandes conquistas. Mas não permita que a indiferença faça pouso em sua alma e arrefeça seus ideais. Pense alto e mesmo em face de uma queda tenha os olhos voltados para horizontes coloridos e cortinas de luz. Viva como se cada momento fosse o último, mas imagine-se um imortal, porque é isto que você é, membro da imortalidade. Somente da matéria não restará pedra sobre pedra! Mas a chispa divina que está em tudo que foi criado, esta sobreviverá aos ventos e tempestades, às tribulações e vicissitudes.

          Associe-se ao tempo, tome-o pelas mãos e construa uma identidade que o torne senhor de seu destino. Não perca a chance de escrever sua própria estória com páginas de exaltação à vida, privilégio raro para que possamos nos realizar, construir caminhos memoráveis e jornadas inesquecíveis.

Luno  Volpato é escritor, poeta, membro da Academia
 Campineira de Letras e  mestre em Língua Portuguesa.
Publicado no "Correio Popular" em 29/01/2012




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Educação a distância é tema de livro

          "Com o objetivo de debater a educação a distância, as novas modalidades de ensino e aprendizagem e o papel das novas tecnologias da informação e comunicação nas escolas e nos cursos de formação profissional, o diretor de educação a distância da Anhanguera, professor José Manuel Moran -
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4783330H6 - e o professor José Armando Valente, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lançaram o livro Educação a Distância: Pontos e Contrapontos, pela Summus Editorial. A obra contou com a organização de Valéria Amorim Arantes, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). O livro pode ser adquirido nas principais livrarias do País." (AAN - Correio Popular, edição de 24/10/2011, pg. A8)

          Como todos sabemos, o Professor José Manuel Moran é o Diretor do Centro de Educação a Distância da Universidade Anhanguera Uniderp, com larga experiência educacional, dedicando-se hoje à Educação a Distância. Aos interessados, certamente vale a pena conhecer sua obra.

domingo, 2 de outubro de 2011

A revolução que liquidou o emprego

Em meu primeiro curso de graduação tive a felicidade de ser aluno de um admirável Mestre, Professor Gramont, da cadeira de estatística, que repetia uma frase que nos marcou a todos, seus alunos, sempre que mostrava um gráfico.
Dizia com ênfase: "Em nossa conclusão, não importam os números, importa a tendêêência dos números". Ensinava-nos, dessa maneira, a interpretar a mensagem trazida pelo resultado do estudo, e não a informação abstrata. Sua valiosa lição jamais será esquecida.
Hoje trago a vocês, meus amigos, um texto publicado na Revista Veja em outubro de 1994. Isso mesmo, há exatos dezessete anos! Vocês podem se perguntar: por que rever um texto tão antigo, num mundo em que tudo acontece tão rapidamente? As informações se desatualizam de um dia para o outro...
Convido você a constatar o quanto estava correto o meu saudoso Mestre. Trata-se de assunto de extrema importância, a nossa empegabilidade. Veja como a tendência continua tão firme hoje quanto ha dezessete anos... Ao ler o texto, esteja atento a esse fato. Boa leitura.

A revolução que liquidou o emprego

Como manter ou conseguir trabalho num mundo cada vez mais exigente e competitivo

No passado até que era fácil. O cidadão, com o seu canudo universitário debaixo do braço, conseguia emprego em alguma empresa, ajeitava-se na escrivaninha e esperava pela promoção por tempo de serviço. Trabalhar na empresa não era complicado. Não se gastava neurônio, porque pensar era tarefa do chefe. Não havia risco, porque as decisões fundamentais vinham do patrão e toda a tribo apenas obedecia. As exigências eram poucas. Esperava-se do funcionário que se vestisse adequadamente, fosse assíduo, pontual e cordato. Se ele falasse inglês, era ilustre erudito. Nessa firma tradicional, o inglês era tão útil quanto o iídiche. Esqueça essa firma em preto e branco, porque ela acabou. Esqueça também esse tipo de emprego. Nos últimos quinze anos, as empresas mudaram tão radicalmente que os especialistas em administração se referem a esse período como anos revolucionários.
Tudo o que se refere ao emprego mudou na mesma intensidade revolucionária. A assiduidade, a pontualidade e o tempo de serviço já não são qualidades sagradas na empresa de hoje. A obediência canina virou defeito e falar inglês tornou-se um item fundamental. Sem ele, dificilmente alguém alcança uma boa posição. O mundo do trabalho tornou-se mais difícil, mais complexo, e quem se comporta segundo padrões antigos se arrisca a ingressar nos gráficos de desemprego do IBGE. Até porque as empresas se reciclaram em busca de produtividade e estão funcionando melhor com menos empregados. É espantoso que, num cenário cheio de novos conceitos como esses, os pais da classe média ainda eduquem os filhos pensando na experiência ultrapassada que eles próprios tiveram no trabalho.
FAX E COMPUTADOR - Uma pesquisa feita pelo Ibope durante a campanha eleitoral revelou que a segurança, as deficiências do sistema educacional ou os menores abandonados são temas menos angustiantes para a maioria das pessoas do que a perda do relógio de ponto - um fantasma capaz de assombrar 70% dos entrevistados. Há motivos para o temor aumentar. A economia brasileira voltou a crescer, mas a oferta de bons empregos está estacionada. De acordo com a Federação das Indústrias de São Paulo, Fiesp, a indústria paulista está produzindo a mesma quantidade de cinco anos atrás com 25% de trabalhadores a menos. Esse é o problema. O que está acontecendo no Brasil é uma reprodução tardia do fenômeno que atingiu os países desenvolvidos durante a década passada.
A Autolatina, o maior conglomerado industrial privado do país, tinha 55.000 empregados em 1989 e produzia uma média de 41.000 carros por mês. Hoje, a média de produção mensal é de 50.000 automóveis, 9.000 a mais. Se a Autolatina continuasse trabalhando da maneira que funcionava há cinco anos, seriam necessários 67.000 empregados para produzir o volume de carros montados atualmente. Como houve mudanças, em vez dos 67.000 empregados ela tem só 47.000. Perdeu braços, mas ganhou eficiência. "Se não tivéssemos mudado, não seríamos mais competitivos", diz Carlos Augusto Marino, diretor de relações trabalhistas da Autolatina. Isso é muito bom para os seminários de produtividade. Mas é péssimo para os candidatos a emprego.
Em certas áreas industriais brasileiras, vive-se uma fase em que tarefas antes feitas por braços humanos são executadas por robôs. Em muitas empresas, demitem-se operários antigos, treinados para tarefas repetitivas em máquinas rudimentares, e contrata-se gente com nível de escolaridade maior para operar equipamentos mais novos e complexos. Em 1989, 65% dos trabalhadores da Autolatina tinham nível de instrução inferior ao 1º grau completo. Alguns eram analfabetos. Hoje, o total de empregados que não completaram o 1º grau caiu para 45% - e a maioria destes prossegue os estudos em cursos mantidos pela própria empresa.
É uma constatação óbvia, não uma surpresa, a mudança ocorrida no trabalho neste século. Galpões lotados de empregados fazendo trabalho manual foram substituídos por linhas de produção automáticas, até em fábricas de bolachas do interior. Nos escritórios e nos bancos, aquela turma sisuda que ficava o dia inteiro empilhando, colando, arquivando e despachando, com três assinaturas em cada folha de papel, está há muito tempo aposentada. A eletrônica acabou com tudo isso. Parece a velha evolução natural das coisas. O empregado aceita o computador, o fax, o telefone sem a telefonista, mas o resto fica do mesmo jeito, não é? Não, não é mais assim. O mundo do velho emprego está acabando. Pode ser difícil encarar o fato, mas o emprego para toda a vida, aquele conceito de emprego que impregnou a experiência dos pais e avós desta geração, isso tende ao desaparecimento.
MÁQUINA A VAPOR - O emprego de que se fala aqui todo mundo sabe o que significa. O sujeito bate o relógio de ponto, recebe as ordens do chefe e atravessa o dia bovinamente, sem externar idéias próprias e sem contribuir para melhorar o produto da empresa. Executa tarefas repetitivas, como apertar eternamente os mesmos três parafusos numa linha de montagem ou selar e carimbar num escritório, sempre dentro de uma pesada arquitetura hierárquica em forma de pirâmide. Apenas o topo dessa pirâmide ousa ter vida inteligente. Os de baixo, em compensação, cumprem horário e prestam obediência, mas não têm responsabilidade sobre o insucesso da organização. O empregado é fiel e o patrão dá segurança. Agora, exige-se mais do funcionário e a retribuição também é maior para os competentes. A siderúrgica Mendes Júnior, na cidade mineira de Juiz de Fora, estimula seus funcionários a apresentar sugestões que levem à redução de custos, à melhoria da qualidade do produto e ao aumento da segurança no trabalho. A empresa oferece prêmios em dinheiro e sorteia um automóvel por ano entre os funcionários que têm suas sugestões aprovadas. Empresas de outros setores estão indo para o mesmo caminho.
Essas mudanças refletem a chegada ao Brasil de um fenômeno que atingiu a economia mundial há mais de uma década. "É uma revolução industrial tão ou mais importante do que a provocada pela máquina a vapor, na Europa do século XVIII, e a que acompanhou o modelo americano de produção em série, no início do século XX", aponta o cientista político Sérgio Abranches, do Rio de Janeiro. As revoluções industriais anteriores caracterizaram-se pela expansão da economia num quadro de crescimento acelerado da oferta de emprego. Acontece diferente na revolução atual, que tem sua origem na competição industrial, na guerra de mercado entre os países e na internacionalização cada vez maior da economia. Observa-se agora um ciclo de expansão econômica seguido da redução na oferta de empregos.
De repente, as empresas passaram a fazer parte de um mundo cujas fronteiras desabaram. O dinheiro, agora sem pátria, circula pelo globo à razão de 27 bilhões de dólares por dia e vai para os países que o remuneram melhor. No comércio também há um intercâmbio febril. O japonês come frutas do Chile, bebe vinho da França, usa roupa da Itália, compra leite dos Estados Unidos e petróleo do mundo inteiro. O americano usa camisa chinesa, sapato brasileiro, eletrônico coreano e carro japonês. O Brasil, de dois ou três anos para cá, pode comprar até macarrão da Itália e carro da Coréia, se tem dinheiro. Chegou meio atrasado, mas já começou a entrar na ciranda internacional.
Nesse mundo transnacional, de economia globalizada, intensificou-se a competição. Os empresários, acostumados a um ninho mais macio, rangeram os dentes. Mas tiveram de entrar na corrida para não desaparecer. Foi aí que surgiu toda essa mania de renovação de que o cidadão comum toma conhecimento pelo jornal através de expressões como reengenharia, qualidade total, corte de níveis hierárquicos e outras preciosidades da linguagem gerencial. Se esse jargão ainda não entrou no seu raio de interesse, comece a preocupar-se.
REENGENHARIA PESSOAL - Muitos trabalhadores atingidos pelo furacão desconfiam que o objetivo disso tudo, no fundo, no fundo, é demitir o máximo possível e sobrecarregar de trabalho os que ficam. Não estão de todo enganados. Mas poucos entendem o ponto mais delicado da questão. Para sair ganhando nessa fase de transformação das empresas, os empregados terão de fazer em si próprios uma gigantesca reengenharia individual. Terão de se tornar tão flexíveis e aptos quanto as empresas estão ficando nesta véspera do ano 2000.
As exigências que os administradores fazem para contratar funcionários em postos de qualidade dão uma idéia dos desafios para cada candidato. Sem o 1º grau completo está difícil arrumar emprego até na construção civil. Para funções de comando, só se qualifica quem tem formação universitária. O funcionário que não fala inglês não sobe de posto. Quem fala duas línguas, além do português, larga na frente. Se fosse só isso, estaria fácil. Algumas empresas, além de diploma e língua, desejam que os candidatos a um cargo no topo tenham vivido no exterior. "Não exigimos de um candidato a emprego que tenha experiência internacional, mas esse é um fator que pode definir uma contratação", diz Raul Rosenthal, presidente da American Express.
Existem outros requisitos fundamentais. Quem não for bamba num laptop não consegue trabalhar no Citibank. Aliás, os ignorantes em informática não conseguem mais ser bons médicos, advogados, bibliotecários, secretárias ou vendedores de passagens aéreas. Num futuro muito próximo, não conseguirão trabalho nem no caixa do supermercado. "No futuro, quem não souber usar computador terá dificuldades até para ser porteiro", diz Mario Fleck, presidente da Andersen Consulting.
Essas coisas podem ser aprendidas na escola. Outras habilidades exigidas pelas empresas modernas não podem. Elas estão num terreno, por assim dizer, imaterial. As empresas querem empregados flexíveis. A Bayer, indústria química de São Paulo, exige que seus funcionários entendam um pouco de vários assuntos. "Não adianta ser um engenheiro com ótima capacidade técnica, se ele ignora os interesses da empresa na área de marketing", explica Roberto Thomas Arruda, diretor de recursos humanos da Bayer. A multinacional de cosméticos Avon também quer que seus profissionais sejam capazes de atuar em vários campos ao mesmo tempo. "O economista ou o químico que trabalham conosco devem ser competentes na sua função e funcionar também como uma antena que capta e transmite informações para todas as áreas", diz Ana Maria Rédua Gean Marino, gerente de recursos humanos da Avon.
Outra exigência atual é rotulada pelos consultores empresariais de "curiosidade". A curiosidade pode ser definida como a disposição do profissional de absorver conhecimentos de qualquer experiência - até de uma viagem de férias ao Amazonas. As empresas vêem na curiosidade um uso prático. O consultor paulista Luiz Carlos Cabrera, da PMC & Associados, conta que um executivo paulista visitou a China, numa viagem de lazer, e voltou cheio de idéias. Sua empresa, hoje, por causa dessa viagem, exporta para a China. Na Andersen Consulting, exige-se dos funcionários que leiam os jornais. "Quem não se informa sobre o mundo não consegue resolver os problemas que propomos", diz Eliane Pires, gerente da Andersen. "Quem não leu jornal ao meio-dia à 1 da tarde já perdeu terreno para um grupo grande de pessoas", diz Luiz Cabrera.
ONDA DE DEMISSÕES - Desde o início da produção em massa, nas primeiras décadas deste século, nunca se fez uma revisão tão grande sobre a maneira como a sociedade produz. As companhias tendem a querer cada vez mais trabalho e a oferecer cada vez menos emprego. Tende-se a pensar que o emprego, na concepção das últimas décadas, sempre existiu. Na era pré-industrial, a pessoa fazia tarefas variadas ao longo do dia para o patrão, conforme as necessidades impostas pela estação do ano, a ocorrência de uma safra ou acontecimentos circunstanciais, como o desabamento de um celeiro ou a chegada de um barco carregado de mantimentos. Passou-se em seguida para o modelo de emprego que sobreviveu até hoje. Começa-se a entrar agora num sistema marcado pela competição acirrada e pelo aumento da produtividade. É óbvio que os empregados estão obrigatoriamente envolvidos nesse processo.
A mudança trouxe muitos efeitos. O mais evidente foi uma onda de demissões que produziu 35 milhões de desempregados nos países desenvolvidos, conforme as estatísticas da OCDE, a organização dos sete países mais ricos do mundo. Os países industrializados da Europa têm problemas seriíssimos nesse campo. Na Espanha, o desemprego é de 23%. Mesmo num país como a Finlândia, encravado no paraíso nórdico, onde o desenvolvimento sempre se revestiu de uma face humana, a taxa dos desempregados bateu nos 19% e o finlandês de hoje já discute a reversão de seu sistema de seguridade social.
O território mais sacrificado é o da indústria - justamente o ramo que puxou o comboio do emprego até pouco tempo atrás. No início dos anos 70, a indústria gerava 26% dos empregos oferecidos nos Estados Unidos. Hoje, gera menos de 20%. Na Alemanha, a participação dos empregos industriais no conjunto dos postos de trabalho caiu de 36% para 32% nos últimos vinte anos.
Apanhado num ciclo de recessão quando iniciava sua abertura econômica, o Brasil corre o risco de confundir esses fatores. Associa-se freqüentemente abertura comercial com queda do emprego nacional. Com a última rodada de rebaixamento das alíquotas de importação, iniciada no mês passado pelo governo, essa discussão voltou a esquentar. Num estudo recente, em que comparam a situação brasileira com a dos países desenvolvidos, os professores Sérgio Abranches, Paulo Fernando Fleury e Edward Amadeo analisam o problema e são claros em seu diagnóstico. Segundo os professores, fechar-se à competição internacional pode significar a manutenção dos níveis de emprego industrial por algum tempo.
Diante da velocidade com que surgem no mundo novos produtos e novas técnicas de produção, essa medida teria porém resultado nefasto. Afastaria gradativamente o Brasil da raia de competição internacional. Com o passar do tempo, a ausência de comércio reduziria o nível de investimentos. A indústria não sobreviveria mesmo com as portas do país fechadas, naufragando "por absoluta inépcia competitiva". "A decisão é enfrentar o problema agora ou deixar para mais tarde, quando a solução será certamente mais difícil", recomenda o economista Paulo Fernando Fleury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
EXECUTIVO MORTO - O maior erro em que pode cair um jovem candidato ao mercado de trabalho é imaginar que sua vida profissional está desligada de todos os desafios de competitividade que cercam a economia brasileira em seu conjunto. A economia, as empresas e os trabalhadores são esferas da mesma engrenagem. As empresas querem gente que se arrisque, saiba trabalhar em equipe, questione ordens, apresente idéias, administre o seu tempo de trabalho. Tem mais. Aquele que entra numa empresa e deseja subir de posto tem de colecionar todas as habilidades listadas e estudar continuamente. "Os cursos de graduação ensinam o que era necessário para uma realidade de dez anos atrás e o profissional já sai com deficiências", diz Charles Stephen Kanitz, economista da USP. Quem está para entrar no mercado do trabalho que saiba desta norma fundamental: não dá mais para parar.
A competição é diária, contínua e só termina na aposentadoria. O engenheiro mecânico Carlos Fernandes Costa Novaes investe 10% de sua renda em treinamentos que lhe possam assegurar promoções. Novaes trabalha na locadora de carros Localiza e, de 1990 para cá, já fez vinte cursos nas áreas de compras, marketing e relações interpessoais. Nesse esforço, passou de supervisor de manutenção a assistente de gerente e atualmente está numa terceira faixa. Está concluindo sua pós-graduação em Marketing na Universidade Federal de Minas Gerais e pretende continuar estudando. "Quem não se atualiza está fora", diz ele.
Na década de 70, um produto lançado no mercado atravessava dois anos de estado de graça, até que o concorrente descobrisse como foi feito. Na década de 80, esse prazo reduziu-se para seis meses. Hoje, em apenas seis semanas uma empresa perde a exclusividade sobre um lançamento. A velocidade empresarial tornou-se impressionante, e o executivo lerdo morre na competição. "Só haverá dois tipos de administrador - os rápidos e os mortos", disse David Vice, da Northern Telecom, numa frase citada por Tom Peters, um guru da administração.
Com seu exército de milhões de desdentados, o Brasil tem uma perna na áfrica e outra no mercado moderno. Para o pedaço iletrado e subempregado, essas esquisitices de renovação gerencial nada significarão. A esses é preciso dar uma colocação minimamente decente, carteira assinada, alguma assistência social - e nada de conversa sobre economia globalizada. Numa faixa intermediária, o assunto também é tão inacessível quanto o idioma javanês. Por muito tempo, o ambiente de trabalho continuará igual na forja de subúrbio em São Paulo, na confecção de roupas populares em Blumenau e na fábrica de alpercatas em Caruaru, Pernambuco. Mas muitas empresas de grande e até média envergadura já descobriram que a única forma de enfrentar a concorrência brava que está aí é fazer - já - produtos melhores e mais baratos. Quem trabalha num lugar assim pode ter certeza de que a hora da reciclagem chegou.
ESCOLA EFICIENTE - Algumas famílias com recursos suficientes para educar os filhos num modelo de país industrializado já tentam antecipar as mudanças em casa. São casos excepcionais e até luxuosos, mas é interessante ver como funcionam. Em São Paulo, o casal de empresários Aramis e Lais Forte educa os filhos segundo essa visão. As crianças estudam num colégio espanhol porque os pais acham que essa será a segunda língua mundial. Os filhos viajam todo ano para o exterior. Os pais esperam que as férias sirvam de fonte de conhecimento para as crianças. Elas aprendem inglês, brincam e estudam com um computador e debatem com os pais, aos domingos, as notícias publicadas pela imprensa. "As empresas exigem resultados dos funcionários, e aqui em casa nós não premiamos a mediocridade", diz Aramis.
Especialistas dão uma série de conselhos para que os pais adaptem a educação dos filhos aos novos tempos (veja quadro à pág. ao lado). Uma das principais recomendações é saber se a escola é mesmo capaz de preparar a criança para um bom futuro profissional. "Os pais devem exigir que a escola diga onde estão e o que fazem os seus ex-alunos. É um indicador da eficiência da escola", diz o consultor Marcelo Mariaca.
As pessoas podem pensar, diante do volume de sacrifício, que é melhor guardar o dinheiro da educação e presentear o filho com uma franquia da água de Cheiro quando ele fizer 18 anos. Isso é um erro. O treino requerido pelas empresas não serve apenas para os seus empregados. Na verdade, as novas exigências pertencem ao final do século XX e abrangem todos os campos de trabalho. Sem inglês, computador, interesses variados, sintonia com as mudanças e uma nova fileira de habilidades não dá para ser um bom advogado ou um microempresário bem-sucedido.
O técnico químico Lúcio Edno Pereira, mineiro, é um microempresário que provou o sucesso. Ele trabalhou durante quinze anos no laboratório de cores da Ford. Nesse tempo, fez todos os cursos que a empresa lhe ofereceu, mesmo que não tivessem nada a ver com química ou cores. Depois, passou por um banco, por três anos, para aprender a lidar com números. Fez mais um estágio, numa multinacional, antes de abrir o seu negócio. Pereira inventou um método de lavar carros sem usar água e montou uma empresa, a Dry Car, no ano passado. Em julho, resolveu franquear a fórmula da Dry Car. Apareceram vinte interessados, que compraram a franquia. "O meu segredo foi pensar de forma diferente. Troquei o tradicional pelo novo. Arrisquei", conta o ex-técnico. Ele reconhece que a sua empresa deu certo e está crescendo porque ele, Pereira, é um profissional bem treinado por grandes empresas. Pereira saiu do circuito do relógio de ponto por conta própria. Infelizmente, a maioria sai contra a vontade, por demissão. No Brasil, a taxa de desemprego, de 5,5%, é baixa. Mas em áreas concentradas de indústria, comércio e serviços é muito maior. Na Grande São Paulo, de 16%.
GRANDE DEPRESSÃO - De cima a baixo, todos os processos que resultam em ganhos de produtividade têm como efeito colateral o despejo de trabalhadores. "As empresas vão produzir três vezes mais, com menos gente. E quem ficou vai trabalhar mais", diz a consultora Beatriz Martini, da BSM & Associados, uma consultoria de São Paulo. A revolução industrial que apareceu de surpresa no final do século empilhou desempregados aos milhões. Em magnitude, ela é tão grande quanto a depressão mundial de 1929-1933, que desempregou 30 milhões de pessoas. Por enquanto, o mundo está assistindo perplexo à degola dos empregados e ela parece muito injusta. O pior é que não há solução à vista. "O futuro pode apresentar alguma solução, mas hoje ela não é conhecida e não dá para reverter o processo", diz o economista José Pastore, da Universidade de São Paulo, especialista em sociologia do trabalho.
Se as grandes empresas demitiram tanto, a pergunta óbvia é: onde foram gerados os empregos que impediram a explosão catastrófica das estatísticas de desocupação no Brasil? A queda da oferta de trabalho na indústria foi parcialmente compensada pelo aumento da quantidade de vagas em outros segmentos da economia, como o comércio e, principalmente, o setor de prestação de serviços. Muitos dos empregados demitidos pela indústria foram reaproveitados por prestadoras de serviços e hoje continuam fazendo o mesmo trabalho de antes, só que com um patrão novo ou trabalhando por conta própria. Esse fenômeno, a terceirização, atingiu sobretudo a mão-de-obra menos qualificada, como os motoristas, os seguranças e os faxineiros. Também pegou funcionários mais graduados. Muitas empresas hoje em dia contratam de terceiros serviços como o processamento de dados e o atendimento aos clientes.
As franquias também vêm absorvendo dezenas de milhares de pessoas. De 1988 a 1993, foram abertas no Brasil 50.000 franquias. Essas pequenas empresas, que exploram marcas conhecidas e atuam principalmente no comércio de roupas e refeições rápidas, geraram nos últimos anos cerca de 500.000 postos de trabalho. A rede de lanchonetes McDonald's, a maior franqueadora do Brasil, emprega um total de 11.000 jovens nas suas 140 lojas espalhadas pelas principais cidades do país.
Na reestruturação produtiva que ocorre neste final de século, o Brasil leva uma vantagem sobre os países desenvolvidos. Essa vantagem, por estranho que pareça, é a de ter largado na última fila na corrida da competição. "O Brasil tem condições de tirar vantagens de seu atraso. Deve olhar para os países desenvolvidos e copiar o que fizeram certo. Em alguns casos, deve agir diferentemente para reduzir os efeitos negativos causados pela modernização da economia", diz o cientista político Sérgio Abranches. Na avaliação de Abranches, se o Brasil realmente deseja acompanhar o ritmo da evolução mundial, precisa fazer obras de modernização na infra-estrutura de transportes, no sistema de telecomunicações e no sistema educacional. Isso exigirá trabalho de milhões de pessoas e reduzirá por muitos anos o impacto da modernização sobre o nível geral de empregos. Quanto à geração que se prepara para chegar ao mercado de trabalho, é melhor saber desde já que não encontrará nada parecido com o mundo do emprego conhecido pelos seus pais.

Perfil do profissional

Antes da década de 70

•A experiência é a ferramenta usada no comando.
•É acomodado.
•É dependente.
•É carreirista.
•É resistente à mudança.
•Seu salário é determinado pela empresa.
•Seu conhecimento é fruto da experiência profissional.

Entre as décadas de 70 e 90

•O grau de escolaridade é sua ferramenta de comando.
•É confiante.
•É político.
•Procura ser criativo.
•Ajusta-se às mudanças.
•É muito competitivo.
•Seu conhecimento é baseado na teoria acadêmica.

Hoje em dia

•Sua performance é sua ferramenta de comando.
•É curioso.
•É independente.
•Gera mudanças.
•É cooperador.
•Seu salário é conquistado pela importância do seu trabalho.
•Seu conhecimento é fruto da aplicação prática da teoria.

De hoje em diante

•As realizações de sua equipe são a ferramenta de seu sucesso.
•É estudioso.
•Tem uma visão global das coisas.
•Lidera mudanças.
•É facilitador.
•Seu salário é conquistado pelo resultado de seu trabalho e de sua equipe.
•Seu conhecimento é fruto do aprendizado contínuo.
De pai para filho
Conselhos de especialistas para encaminhar os filhos
•Não martirize o adolescente com a escolha do curso universitário. Em empregos de nível médio para cima, ter faculdade é fundamental, mas o curso escolhido não tem muita importância. A faculdade deve servir como um estímulo ao crescimento intelectual
•Incentive a capacidade de experimentar coisas novas. Antes, o bom emprego era no Banco do Brasil. Hoje, uma microempresa é muito melhor.
•Não se assuste se seu filho escolher trabalhar com coisas exóticas. Um ecologista em multinacional ganha mais dinheiro que um médico no Inamps.
•No mundo de hoje as habilidades profissionais, assim como os negócios, são efêmeras. O profissional deve ser continuamente reinventado. Curiosidade e flexibilidade são atributos indispensáveis para a reciclagem. Evite disciplinar seu filho em esquemas rígidos de aprendizado. Se for possível, dê-lhe livros e vídeos sobre outros países e outras culturas, leve-o a museus, faça viagens ou inscreva-o em algum dos muitos cursos de intercâmbio cultural oferecidos pelas escolas. Os limites do mercado de trabalho serão os limites de sua cultura.
•O inglês já foi um apêndice para brilho social. Hoje, multiplica as chances na carreira.
•Assim como foi importante ter noções de datilografia, os jovens devem estar preparados para lidar com o computador, o aparelho de fax e outros equipamentos desse tipo. O ignorante em informática equivale ao analfabeto dos anos 60.
•Valorize a independência. Seu filho pode querer estudar inglês, aprender bateria, treinar vôlei e ginástica olímpica e ainda fazer um curso de computação e outro de fotografia. Se o tempo e o dinheiro não dão para tudo isso, é bom que ele próprio defina as prioridades. Exercitar-se nisso o preparará para programar sua vida profissional.

Revista Veja, edição de 19/10/1994